quinta-feira, 19 de agosto de 2010

LIVRO VERMELHO II

O tema da "reeducação dos intelectuais" na China Vermelha, concebida e liderada pelo "Grande Timoneiro", o presidente Mao Zedong (Mao Tsé Tung), merece algumas considerações adicionais. Além de outras fontes, inspirei-me, ao escrever estas linhas, no belo romance do escritor sino-francês Dai Sijie "Balzac et la Petite Tailleuse Chinoise", edições Gallimard, 2000. O pequeno texto que se segue dará notícia da sistemática e implacável repressão cultural exercida, sob a batuta dos grandes "educadores", instruídos pelos ensinamentos do "Livro Vermelho", contra quem quer que ousasse ter um pensamento próprio. A campanha, lançada nos fins da década de sessenta, pelo presidente Mao iria modificar profundamente a China. As universidades foram fechadas e os "jovens intelectuais", estudantes que haviam terminado os seus estudos secundários, foram enviados para a província, a fim de, na pureza da ruralidade, serem "reeducados" pelos camponeses pobres, seguidores fiéis e acéfalos das citações do Livro Vermelho".
A história relatada no romance gira em torno de dois jovens da cidade, de 17 e 18 anos, Luo e o narrador, que, em 1971, por serem considerados "intelectuais", foram enviados para as remotas "Montanhas da Fénix do Céu", na província de Sichuan, para serem reeducados pelo chefe da aldeia e pelos camponeses, gente rude, ignorante e afastada dos mais ténues sinais de civilização ou cultura. Luo era um notável contador de histórias, tendo, desse modo, caído nas boas graças do "chefe" e dos restantes montanheses. Entretanto, numa outra povoação, não muito distante, vivia uma jovem elegante e belíssima, filha do alfaiate da região. Trabalhava, ajudando o pai nas suas tarefas de corte e costura. Com naturalidade, Luo e a jovem modista apaixonaram-se e, sob os olhares desconfiados dos camponeses, passaram a manter um romance cada vez mais apaixonado.
Por sua vez, numa outra aldeia vizinha,  vivia um terceiro jovem, pesado e indolente, também sujeito ao regime de "reeducação", a quem os dois amigos chamavam o "caixa de óculos". Em troca de pequenos serviços prestados, o novo amigo comçou a ceder-lhes, por curtos períodos de tempo, sempre às escondidas, e apenas um de cada vez, alguns livros de Balzac.
Os dois amigos foram ficando cada vez mais desconfiados do conteúdo de uma mala que o "caixa de óculos" conservava sempre fechada, ciosamente resguardada de olhares estranhos. Resolveram, por isso, aproveitando a sua ausência, desvendar o seu conteúdo. E foi com a maior surpresa que depararam, no seu interior, com grandes títulos dos maiores nomes dos escritores do mundo ocidental: romances de Balzac,  Victor Hugo, Stendhal, Alexandre Dumas, Flaubert, Baudelaire, Rousseau, Tolstoi, Dostoievski, Gogol, e alguns de autores ingleses: Dickens, Kipling, Emily Bronté.
Que entusiasmo, que magia! "Com estes livros, a Pequena Costureira nunca mais voltará a ser uma simples montanhesa".
Seguiram-se tempos muito difíceis: a dura "reeducação" que, sob a cartilha inflexível do "Livro Vermelho", os dois amigos tiveram de suportar, deu causa a vicissitudes ultrajantes e desumanas, a violentas humilhações e torturas, a padecimentos físicos e psicológicos. Mas a tudo conseguiram resistir...
E o certo é que a leitura dos livros que, ainda assim, conseguiram escapar à purga dos "polícias da revolução" transformou a "pequena modista" numa mulher diferente: nasceu uma mulher liberta, disposta a conhecer o mundo, desejosa de abrir a vida e de alargar os horizontes, entreabertos, num primeiro momento, pelas palavras bebidas da boca de Luo e lidas, mais tarde, nas páginas mágicas dos livros "malditos". Não voltou a ser a mesma!  E foi esssa outra mulher, não mais inocente, mas, pelo contrário, curiosa e sedutora, aberta ao mundo e à sua tentação que, na hora da despedida, disse aos dois amigos: "Balzac fez-me compreender uma coisa: a beleza de uma mulher é um tesouro que não tem preço".

1 comentário:

  1. Comentário do meu amigo Luís Salgado:

    "Meus amigos

    À luz dos Tabus.

    Tabu é qualquer coisa sagrada, proibida, misteriosa, perigosa, sigilosa, é o conhecimento reservado, é o que não se discute para não ofender a divindade ou a sociedade, é o que está escondido na maçã que Adão roeu e só é conhecido por quem está perto( nas boas graças) de Deus ou dentro da maçã e não é lagarta.
    Aqueles que nunca se enganam e raramente têm dúvidas são os iluminados os que possuem o “dom”, os donos do tabu, respiram do bafo de Deus, são aqueles que hão-de vir (vão ver que a profecia vai ser uma certeza).
    É por isso que aos donos dos tabus tudo acontece como que por magia: são eleitos lideres de partidos como consequência da rodagem dum automóvel, são eleitos presidentes duma nação sem serem políticos, vendem acções bolsistas imediatamente antes dos “crashs” financeiros, (até acontecem que algumas dessas derrocadas foram provocadas pelos oráculos).

    Há algumas coisas que não conseguem, por exemplo, lutar contra forças de bloqueio, que "Os Lusíadas" tenha só nove cantos; que o Livro Vermelho, repositório de parábolas rascas, slogans publicitários, conselhos retrógrados para amordaçar os espíritos seja a cartilha dos Magistrados Supremos.
    Se com frequência tivessem dúvidas talvez não se enganassem.

    Bem, os outros (Supremos Magistrados) que se defendam da ofensa !

    Acho que isto tudo não tem nada a ver com a cultura ou incultura, radica na necessidade de falar sobre aquilo que não se sabe já que, sobre aquilo que se sabe, não se fala .... porque é TABU.

    Pode ser que com outra legislatura venha a saber o que foi o Livro Vermelho,basta isso ... e o melhor, para todos, é que não o leia.

    Que vos parece ?

    Abrações para os dois """""
    """""

    Luís Salgado

    ResponderEliminar